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Terra
La Coctelera

Requiem para Elisabeth

Deixaste para trás o que era teu, e a mim Guardiã da parcela de corpo e alma que me legaste Triste morada para uma estrela da tua grandeza

Escura e fria no rarefeito ar caminho rumo ao nada que é destino certo Tudo pensado e considerado, bem que podias ter-me levado contigo

Mas não Deixaste-me, inconsistente e morta Pele, carne e sangue sem alma Cheia de remorso e cheia da dor de saber que eu não estava na hora da tua partida Não estava e não vou estar, Nunca onde e quando era segurar-te com ambas as mãos que me fizeste iguais às tuas.

Te quero como uma casa vazia quer dentro de si risos e aromas de comida e a paz da mãe que vela por seus filhos Uma casa condenada é o que sou Um cachorro sentado à cova do dono sou Mas tudo pensado e considerado, tu, nem cova tens, e eu Não estava lá, nem mesmo por perto estava Na hora em que tu partiste.

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Interlúdio

Crianças chorando alto. Tive medo. O sono me envolvia inteira, no calor das cobertas.
Crianças chorando alto, gemidos sombrios no meio da noite. Sonhei histórias de abuso sexual, medo e dor, corpos pequenos e adultos encantados por sensações malignas. Criar a dor. Tive medo.

A cama era quente, os travesseiros macios, meu corpo queria ficar e dormir. Os gemidos, no entanto, eram um apelo. Acordei de dentro de um sono brando, bracejando contra a funda irrealidade. Gatos.

Eram gatos, eu soube, no interlúdio sexual. O chamado lancinante que termina num ataque rápido, a mordida no pescoço, segundos de penetração. Fim. O relógio dizia em letras vermelhas: duas e trinta e cinco da madrugada. Além dos gatos, silêncio. Gritavam tanto. Tão humanos. E se for criança? O velho terror aprendido na infância, não vai com ninguém, não fala com estranhos. Tem alguém molestando uma criança em frente a minha janela!

Estou acordada e preciso saber.

Levantei no escuro e fui à janela. A rua que sobe o morro estava vazia. Lixo na calçada, o mato arrumado em sombras por trás da lâmpada de mercúrio. Um colchão velho apodrecia entre os arbustos e as árvores cresciam altas contra os muros pichados. Não vi o corpo em decomposição do gato que os cachorros estraçalharam na outra noite, em segundos, antes que eu pudesse jogar um cabide ou uma lata velha para espantá-los. O gato era preto. A noite é preta com folhas verde escuro. Folhas que o vento agita de leve.

Não, não havia pobres subindo a rua até sumir na curva. Nem traficantes, nem pequenos ladrões ou operários noturnos. Não havia rapazes da classe média de Ipanema se esquivando em meios às sombras. O carro da polícia não estava sob a minha janela, não havia um só guarda de tocaia para extorquir os viciados. Nenhuma criança pequena sofria abuso no matagal. Os gatos estavam lá.

Um era preto, o outro branco, quase imóveis na calçada. O macho gritava alto, um gemido de dor e prazer que ressonava no silêncio da madrugada. A fêmea estática, uma escultura felina miúda, atenta e indiferente. Não estavam sozinhos.

O homem parado à curta distância tinha corpo virado para uns arbustos. Vistos de cima seus movimentos eram indistintos. Dele, mesmo quando o gato silenciava seus apelos, não se ouvia um som. As mão descansavam à altura do abdomen. A cena se mesclava com o negror da noite.

Tive medo de ser vista e recuei um pouco, sem perder a visão. Foi então que alguma coisa se rompeu. Talvez um ruído audível apenas pelos gatos. Ou a sensação de minha presença invisível pairando no ar. O peso da madrugada, uma folha que voou. Quem poderia saber? O gato calou-se e afastou-se lentamente, acompanhado pela fêmea . O homem inclinou-se e vestiu as calças, que só então pude ver, estavam arriadas. Como se quisesse pegá-los, fez um pequeno movimento na direção dos animais. Estes bateram em retirada ágeis e sem muita pressa. O homem, então, dirigiu-se a um canto invisível para mim, coberto pela marquise do edifício. Entendi que dormia ali, entre jornais velhos e caixas de papelão amontoadas. Por alguns instantes o monturo que era seu leito se agitou, e pedaços de papel amassado voaram para o meio da rua. Depois, a noite se fechou novamente em silêncio e escuridão.

Fechei as janelas, as cortinas, voltei para a cama. Os lençóis ainda estavam quentes. O ar noturno entrou em meus pulmões, forte como uma surpresa. Abracei meus travesseiros e não sonhei com crianças maltratadas. Protegida da densa madrugada que avançava fora, senti o mundo muito distante das humanas fantasias de segurança e conforto. Pensei no homem jovem e sujo que dormia a poucos metros abaixo de mim e em suas mãos embalando o próprio sexo, e nos gatos, e no som dos gatos, e ainda no outro estraçalhado no matagal. Tive medo, e o medo era como a noite, e abraçava meu corpo na queda e no abismo.

copyright: 1996@Eurídice Baumgarten

La mala hora

Al alba de una mañana, mientras el padre Ángel se dispone a celebrar la misa, suena un disparo en el pueblo. Un comerciante de ganado, advertido por un pasquín pegado a la puerta de su casa de la infidelidad de su mujer, acaba de matar al presunto amante de ésta. Es uno más de los pasquines anónimos clavados en las puertas de las casas, que no son panfletos políticos, sino simples denuncias sobre la vida privada de los ciudadanos. Pero no revelan nada que no se supiera de antemano: son los viejos rumores que ahora se han hecho públicos; y a partir de ellos estalla la violencia subyacente a la luz tórrida, espesa, cansada y pegajosa, en una serie de escenas encadenadas de inolvidable belleza.

Fonte: Editora

Hace unos pocos años escribí un ensayo sobre este libro, para un curso que tomaba en el Departamento de Portugués y Español de la Universidad de Toronto. Sin embargo, la historia me ha impresionado. Aunque crudo, el estilo de García Márquez se hace sentir claramente, con toda su magia y su capacidad de involucrar el lector en la psicología de sus personajes.