Crianças chorando alto. Tive medo. O sono me envolvia inteira, no calor das cobertas.
Crianças chorando alto, gemidos sombrios no meio da noite. Sonhei histórias de abuso sexual, medo e dor, corpos pequenos e adultos encantados por sensações malignas. Criar a dor. Tive medo.
A cama era quente, os travesseiros macios, meu corpo queria ficar e dormir. Os gemidos, no entanto, eram um apelo. Acordei de dentro de um sono brando, bracejando contra a funda irrealidade. Gatos.
Eram gatos, eu soube, no interlúdio sexual. O chamado lancinante que termina num ataque rápido, a mordida no pescoço, segundos de penetração. Fim. O relógio dizia em letras vermelhas: duas e trinta e cinco da madrugada. Além dos gatos, silêncio. Gritavam tanto. Tão humanos. E se for criança? O velho terror aprendido na infância, não vai com ninguém, não fala com estranhos. Tem alguém molestando uma criança em frente a minha janela!
Estou acordada e preciso saber.
Levantei no escuro e fui à janela. A rua que sobe o morro estava vazia. Lixo na calçada, o mato arrumado em sombras por trás da lâmpada de mercúrio. Um colchão velho apodrecia entre os arbustos e as árvores cresciam altas contra os muros pichados. Não vi o corpo em decomposição do gato que os cachorros estraçalharam na outra noite, em segundos, antes que eu pudesse jogar um cabide ou uma lata velha para espantá-los. O gato era preto. A noite é preta com folhas verde escuro. Folhas que o vento agita de leve.
Não, não havia pobres subindo a rua até sumir na curva. Nem traficantes, nem pequenos ladrões ou operários noturnos. Não havia rapazes da classe média de Ipanema se esquivando em meios às sombras. O carro da polícia não estava sob a minha janela, não havia um só guarda de tocaia para extorquir os viciados. Nenhuma criança pequena sofria abuso no matagal. Os gatos estavam lá.
Um era preto, o outro branco, quase imóveis na calçada. O macho gritava alto, um gemido de dor e prazer que ressonava no silêncio da madrugada. A fêmea estática, uma escultura felina miúda, atenta e indiferente. Não estavam sozinhos.
O homem parado à curta distância tinha corpo virado para uns arbustos. Vistos de cima seus movimentos eram indistintos. Dele, mesmo quando o gato silenciava seus apelos, não se ouvia um som. As mão descansavam à altura do abdomen. A cena se mesclava com o negror da noite.
Tive medo de ser vista e recuei um pouco, sem perder a visão. Foi então que alguma coisa se rompeu. Talvez um ruído audível apenas pelos gatos. Ou a sensação de minha presença invisível pairando no ar. O peso da madrugada, uma folha que voou. Quem poderia saber? O gato calou-se e afastou-se lentamente, acompanhado pela fêmea . O homem inclinou-se e vestiu as calças, que só então pude ver, estavam arriadas. Como se quisesse pegá-los, fez um pequeno movimento na direção dos animais. Estes bateram em retirada ágeis e sem muita pressa. O homem, então, dirigiu-se a um canto invisível para mim, coberto pela marquise do edifício. Entendi que dormia ali, entre jornais velhos e caixas de papelão amontoadas. Por alguns instantes o monturo que era seu leito se agitou, e pedaços de papel amassado voaram para o meio da rua. Depois, a noite se fechou novamente em silêncio e escuridão.
Fechei as janelas, as cortinas, voltei para a cama. Os lençóis ainda estavam quentes. O ar noturno entrou em meus pulmões, forte como uma surpresa. Abracei meus travesseiros e não sonhei com crianças maltratadas. Protegida da densa madrugada que avançava fora, senti o mundo muito distante das humanas fantasias de segurança e conforto. Pensei no homem jovem e sujo que dormia a poucos metros abaixo de mim e em suas mãos embalando o próprio sexo, e nos gatos, e no som dos gatos, e ainda no outro estraçalhado no matagal. Tive medo, e o medo era como a noite, e abraçava meu corpo na queda e no abismo.
copyright: 1996@Eurídice Baumgarten